Por que o Paquistão se tornou o mediador preferido no conflito do Oriente Médio

11 de abril de 20265 min de leitura
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Por que o Paquistão se tornou o mediador preferido no conflito do Oriente Médio

Veículos passam por posto de controle policial em Islamabad, capital do Paquistão, em 8 de abril de 2026. (Xinhua/Ahmad Kamal)

Islamabad, 9 abr (Xinhua) -- Islamabad, capital do Paquistão, é agora o centro das atenções globais. Lá, negociações há muito esperadas entre os Estados Unidos e o Irã devem ocorrer, aumentando as esperanças de amenizar os confrontos violentos que assolam o Oriente Médio e outras regiões.

Após mais de um mês de confrontos mortais, os Estados Unidos e o Irã chegaram a um cessar-fogo de duas semanas menos de duas horas antes do prazo estabelecido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, concordando em conversar em Islamabad ainda esta semana.

Desde o mês passado, com as tensões ameaçando sair do controle, o Paquistão emergiu não apenas como um espectador, mas como uma ponte diplomática proativa entre Washington e Teerã. Especialistas e autoridades regionais descrevem o Paquistão como um mediador em posição singular, com laços com ambos os lados, interesses urgentes na desescalada e um histórico de diplomacia itinerante que o posicionou para amenizar o impasse regional com impacto global.

Sua ascensão levanta uma questão: o que faz o Paquistão, um país do Sul da Ásia, se destacar para ajudar a acabar com um conflito centrado no Oriente Médio?

O ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Faisal bin Farhan Al Saud (1º à esquerda), o vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Mohammad Ishaq Dar (2º à esquerda), o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan (2º à direita) e o ministro das Relações Exteriores do Egito, Badr Abdelatty, participam de uma reunião em Islamabad, Paquistão, em 29 de março de 2026. (Ministério das Relações Exteriores do Paquistão/Divulgação via Xinhua)

MEDIADOR POR NECESSIDADE

A iniciativa do Paquistão de mediar a paz atende às necessidades de desenvolvimento do país, observaram analistas.

O país compartilha uma fronteira de quase 900 km com o Irã e já enfrenta uma insurgência resiliente de separatistas balúchis em seu flanco ocidental. Um conflito mais amplo no Irã quase certamente encorajaria grupos militantes do outro lado da fronteira, desestabilizando ainda mais o ambiente de segurança já frágil do Paquistão.

Economicamente, os riscos são ainda mais acentuados. O Paquistão depende fortemente do petróleo que flui pelo Estreito de Ormuz. A recente escalada do conflito fez com que os preços dos combustíveis disparassem, causando graves impactos econômicos e energéticos no país.

Além da segurança e da economia, uma mediação bem-sucedida oferece ao Paquistão a oportunidade de se reinventar globalmente. Analistas acreditam que um acordo bem-sucedido fortaleceria seus laços com Washington, com Teerã e com os Estados árabes do Golfo, elevando sua posição entre as nações do Sul da Ásia.

Manifestante segura cartaz em frente à Casa Branca, em Washington, D.C., Estados Unidos, em 7 de abril de 2026. (Xinhua/Li Rui)

LAÇOS COM VÁRIOS LADOS

O que diferencia o Paquistão é sua capacidade de dialogar com credibilidade com ambos os lados.

O Paquistão mantém laços estreitos com o Irã, enraizados na história, em vínculos religiosos e na cooperação fronteiriça. Abriga a segunda maior população xiita do mundo, o que dá credibilidade cultural e religiosa em Teerã. Ao mesmo tempo, o Paquistão tem se esforçado para reconstruir laços de segurança e diplomáticos com os Estados Unidos.

O Paquistão também mantém fortes parcerias com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar. Em 2025, assinou um pacto estratégico de defesa com a Arábia Saudita, aprofundando seu papel como interlocutor de segurança em toda a região do Golfo.

Essencialmente, o Paquistão já fez esse trabalho antes. Na última década, ajudou a mediar negociações entre a Arábia Saudita e o Irã e facilitou o diálogo entre o Afeganistão e os Estados Unidos.

Pessoas participam de uma manifestação em Teerã, Irã, em 8 de abril de 2026. (Xinhua/Shadati)

AMPLO APOIO INTERNACIONAL

A mediação do Paquistão também foi reforçada por um amplo apoio internacional.

Em 29 de março, o Paquistão sediou uma reunião quadrilateral com os ministros das Relações Exteriores da Arábia Saudita, da Turquia e do Egito, que expressaram total apoio à iniciativa paquistanesa de sediar negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã em Islamabad.

Apenas dois dias depois, os ministros das Relações Exteriores da China e do Paquistão se reuniram em Beijing e divulgaram uma proposta conjunta de cinco pontos sobre o conflito no Oriente Médio, instando à cessação imediata das hostilidades, ao início das negociações de paz o mais breve possível e à segurança de alvos não militares, uma iniciativa diplomática que ajudou a impulsionar o movimento global pela desescalada.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, disse que a China apoia e espera que o Paquistão desempenhe um papel único e importante na redução da tensão e na retomada das negociações de paz. Esse processo não é fácil, e os esforços de mediação do Paquistão estão em consonância com os interesses comuns de todas as partes, acrescentou Wang.

De acordo com uma declaração atribuída ao porta-voz do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, o secretário-geral ressaltou que o fim das hostilidades é urgentemente necessário para proteger vidas civis e aliviar o sofrimento humano. Ele expressou sincero apreço pelos esforços do Paquistão e de outros países envolvidos na facilitação do cessar-fogo.