Europa busca segurança no Estreito de Ormuz, mas evita linha de bloqueio dos EUA

16 de abril de 20268 min de leitura
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Europa busca segurança no Estreito de Ormuz, mas evita linha de bloqueio dos EUA

Bombas de gasolina fechadas são vistas em um posto de gasolina em Londres, Reino Unido, em 26 de março de 2026. (Xinhua/Li Ying)

Desde o início da guerra, os governos europeus vem defendendo amplamente a liberdade e a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, resistindo à pressão para endossar a proposta dos EUA de fechá-lo.

Londres, 14 abr (Xinhua) – O Reino Unido e a França anunciaram nesta segunda-feira que coorganizarão uma reunião esta semana sobre segurança marítima no Estreito de Ormuz, à medida que cresce a preocupação europeia com o fechamento da hidrovia e suas consequências econômicas.

Na manhã de segunda-feira, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que o Reino Unido não apoia o bloqueio proposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao Estreito de Ormuz. Os acontecimentos reforçam uma posição europeia mais ampla que apoia a reabertura da hidrovia, embora não chegue a se alinhar completamente com a abordagem de Washington.

Apesar de "alguma pressão considerável", o Reino Unido não será "arrastado para uma guerra" que não seja do seu interesse nacional, disse Starmer à rede britânica de televisão BBC. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que a França e o Reino Unido convocarão os países dispostos a contribuir para uma missão pacífica e multinacional para restaurar a livre navegação, enfatizando que essa missão seria estritamente defensiva e independente das partes envolvidas no conflito.

As duas medidas são coerentes com a mensagem anterior da Europa. Desde o início da guerra, os governos europeus vem defendendo amplamente a liberdade e a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, resistindo à pressão para endossar a proposta dos EUA de bloqueá-lo.

PREOCUPAÇÃO COMUM E LINHAS DIFERENTES

O Reino Unido procura traçar uma linha divisória entre o apoio defensivo e o envolvimento ofensivo. Starmer considera seu dever avaliar o interesse nacional britânico e descartou o apoio a ataques ofensivos ou a um bloqueio.

A França adotou uma postura jurídica e diplomática ainda mais incisiva. Desde o início do conflito, Paris diz não ter sido consultada e não fazer parte da ofensiva militar conjunta entre EUA e Israel. Macron declarou que o uso da força para "libertar" o Estreito era irrealista e não proporcionaria uma solução duradoura para a questão nuclear iraniana.

A Itália também se alinhou à posição europeia mais ampla. Roma defendeu a liberdade de navegação e a passagem comercial segura, mas insistiu na desescalada, no diálogo diplomático e em uma estrutura multilateral. O Ministério das Relações Exteriores italiano disse que qualquer participação em uma iniciativa mais ampla exigiria um mandato claro da ONU.

Portugal manifestou apoio à liberdade de navegação, a um cessar-fogo e aos esforços diplomáticos, mas evitou o envolvimento militar. Lisboa permitiu que os Estados Unidos utilizassem a Base Aérea de Lajes para apoio logístico, mas autoridades portuguesas dizem que o país não participará de ações militares no Oriente Médio nem se juntará a qualquer destacamento de combate.

A Holanda manteve suas opções em aberto, mas não se comprometeram com a abordagem de Washington. A ministra da Defesa holandesa, Dilan Yesilgoz-Zegerius, disse que seu país está trabalhando com aliados para examinar possíveis opções militares para ajudar a restabelecer a navegação, e que nenhuma decisão concreta foi tomada, e qualquer movimento dependerá de necessidades mais claras.

Do norte da Europa, o presidente finlandês, Alexander Stubb, disse na segunda-feira que não podia prever o resultado da guerra ou como a questão de Ormuz evoluiria, esperando que um cessar-fogo se mantenha.

O que emergiu não foi uma linha europeia única em todos os detalhes, mas uma relutância compartilhada em transformar a segurança marítima em apoio a um bloqueio liderado pelos EUA.

Homem abastece carro em um posto de gasolina em Villeneuve d'Ascq, norte da França, em 11 de março de 2026. (Foto de Sebastien Courdji/Xinhua)

MEDIAÇÃO DIPLOMÁTICA

A resposta preferida da Europa tem se concentrado na diplomacia, na coordenação multilateral e em acordos de segurança bem definidos. Iain Begg, professor da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, disse à Xinhua que o Reino Unido vem buscando liderar os esforços diplomáticos para unir os países europeus e os estados do Golfo. Segundo ele, há uma "clara exasperação" com os Estados Unidos.

Ian Scott, especialista em política americana da Universidade de Manchester, disse que o Reino Unido parece estar na vanguarda dos esforços para manter os parceiros europeus em uma linha simples: o estreito deve ser reaberto porque seu fechamento prejudica a todos. Ele disse que isso "não é uma tarefa fácil", em um momento em que os governos europeus responderam de maneiras diferentes ao conflito.

A França vem acompanhando esse esforço com uma abordagem diplomática mais ampla. Na semana passada, Macron pediu uma solução "forte e duradoura" em um telefonema com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, instando a intensificação da diplomacia e dizendo que nenhum esforço deve ser poupado para se chegar a um acordo duradouro.

O debate francês também refletiu uma mudança política mais ampla. Sylvie Kauffmann, colunista do jornal francês Le Monde, escreveu que a recusa da Europa em se unir a Washington na atual guerra do Oriente Médio demonstra que a cisão transatlântica é agora mais profunda do que durante a crise do Iraque em 2003. Na visão dela, a reação da Europa não é apenas técnica ou militar, mas profundamente política.

O governo holandês disse estar trabalhando com aliados, incluindo Reino Unido, França e Alemanha, em maneiras de ajudar a restabelecer a navegação no estreito. A linguagem enfatiza a cautela: restabelecer a circulação, não endossar a escalada.

Portugal apoiou os esforços de cessar-fogo e acolheu a mediação. Após o cessar-fogo temporário entre os Estados Unidos e o Irã, Lisboa aplaudiu o desenvolvimento e agradeceu às partes mediadoras, incluindo o Paquistão. O historiador português Rui Lourido disse que a divergência parcial da Europa em relação a Washington é consistente com uma longa tradição diplomática baseada no multilateralismo, no equilíbrio e no objetivo de "manter a ordem".

Foto tirada em 4 de agosto de 2022 mostra a Casa Branca e uma placa de pare em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Liu Jie)

NÃO SEGUINDO WASHINGTON

Se a retórica europeia tem se concentrado na liberdade de navegação, sua contenção reflete um conjunto mais amplo de preocupações, principalmente de ordem econômica.

Begg disse que o Reino Unido, assim como outros países europeus, está consternado com as restrições à navegação pelo estreito, mas vê a questão principalmente como econômica, dado o risco de uma nova inflação impulsionada pelo aumento dos preços da energia.

Essa preocupação se estende por todo o continente.

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni alertou que, se o Irã obtiver a capacidade de impor taxas de trânsito adicionais pelo estreito, o resultado poderá ser "consequências econômicas imprevisíveis". O Instituto de Assuntos Internacionais (Istituto Affari Internazionali), com sede em Roma, disse que um confronto prolongado entre Irã e Israel poderia elevar os preços do petróleo e do gás a níveis sem precedentes, tornando a retomada da diplomacia uma prioridade estratégica e econômica urgente para a Europa.

Na Bósnia e Herzegovina, o analista econômico Admir Cavalic descreveu o choque como "principalmente uma questão energética e, consequentemente, econômica". O aumento dos preços do petróleo alimentaria a inflação, reduziria o padrão de vida e a competitividade econômica, disse ele à Xinhua.

Outro fator é a cautela jurídica e estratégica.

John Bryson, professor da Universidade de Birmingham, disse que Starmer não quer ver o Reino Unido envolvido em ações que possam ser interpretadas como operações militares ofensivas. O acesso às águas internacionais, disse ele, deve permanecer protegido e aberto a todos.

Bryson também relacionou a crise a uma reavaliação mais ampla do Reino Unido. Em sua opinião, o conflito expôs a vulnerabilidade britânica a interrupções no fornecimento de petróleo e gás e a anos de subinvestimento em defesa, incluindo a Marinha Real.

Há também uma dimensão política na cautela europeia: muitas capitais não querem ser arrastadas para um conflito que não ajudaram a moldar e que pode não servir aos seus interesses.

Begg disse que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra sem consultar os parceiros da OTAN, mas Washington posteriormente esperou que o Reino Unido ajudasse a resolver a questão de Ormuz. Ele disse ser difícil imaginar como um bloqueio americano resolveria o problema, embora o Reino Unido venha demonstrando uma disposição limitada para auxiliar na desminagem.

Nenad Stekic, pesquisador sênior do Instituto de Política e Economia Internacional da Sérvia, disse que a postura da Europa reflete uma tensão entre os valores declarados e os interesses materiais, e que sua divergência de Washington é parcial, e não completa.

Em sua visão, a Europa não se alinhou totalmente aos Estados Unidos devido à pressão da segurança energética, ao risco geopolítico e à interdependência econômica. Ele argumentou que a Europa não pode absorver o impacto da interrupção do fornecimento de petróleo iraniano a baixo custo, teme uma instabilidade mais ampla em sua fronteira sul e possui interesses comerciais no Irã afetados pelas sanções americanas.